A Análise do Discurso de Professores do Ensino Público - parte 2

01/01/2010 11:15

 

Análise do Discurso de Professores do Ensino Público

Parte 2

 

A análise do discurso

 

            O saber e as crenças, para nós, se caracterizam como sendo uma forma ideológica dentro de um discurso. Discurso que pode assumir infinitas formas de acordo com Bakhtin (1986). Em alguns momentos o discurso pode ser pedagógico e em outros ele pode ser um discurso político, isto se dá devido a variedade das atividades humanas e das circunstâncias em que os discursos se materializam.

 

            Segundo Carmo (1997) “o vocábulo discurso se antepõe a um outro que indica um gênero discursivo, um tipo ou uma estratégia discursiva. São os sentidos presentes quando nos referimos, por exemplo, ao discurso político, ao discurso jornalístico, ao discurso religioso, ao discurso didático, ao discurso pedagógico.” (p.35)

 

            Deste modo queremos caracterizar o saber e as crenças como parte de um tipo de discurso que toma diversas formas. Relacionamos este tipo de discurso com as formações discursivas e ideológicas. As formações discursiva são componentes das formações ideológicas que determinam o que pode e deve ser dito a partir de uma posição dada em uma conjuntura dada. Podemos falar de um discurso pedagógico que também pode ser ou se transformar em um discurso político. A definição do tipo do discurso neste trabalho antecede a análise, pois nós já definimos o nosso objeto de análise e o corpus a priori.

 

            Como nosso trabalho está voltado para o professor e seus saberes, como já foi dito e conceituado, neste momento queremos, depois de relacionarmos estes saberes com o discurso pedagógico, levantar as bases onde analisaremos a fala de duas professoras da rede de ensino público.

 

            Pretendemos basear nossa análise na abordagem de Dominique Maingueneau.

Maingueneau trabalha com a abordagem da Pragmática Enunciativa, que tem sua origem na obra dos filósofos Searle e Austin. A pragmática privilegia o papel do sujeito enunciativo e entende o discurso como um modo de ação do indivíduo no mundo. Isso pressupõe sempre a presença de um Eu, que instituindo-se como sujeito, institui também o outro ( Você), como seu interlocutor (Carmo,1997). Isso acontece através do jogo de representações e imagens recíprocas que se estabelece entre eles (Koch,1984, apud Carmo,1997).

 

            A pragmática não se detém na distinção entre dizer e fazer, considera que todo dizer corresponde a um ato, todo enunciado tem uma força ilocutória. A pragmática também se integra à Semântica argumentativa de Ducrot, utilizando na sua análise o ato de argumentar como ato linguístico fundamental. Assim, o sentido do discurso vai depender do sentido de cada um dos enunciados e também do modo de encadeamento desses enunciados.

 

            Na nossa análise pretendemos utilizar também alguns conceitos da Semântica Argumentativa de Oswald Ducrot e Jean Claude Anscombre, que são: os pressupostos subentendidos e implícitos , e explicitaremos mais adiante.

 

            Maingueneau nos fornece uma rica contribuição com seus conceitos de cenografia e ethos, já que procuramos neste nosso trabalho estudar a imagem que o professor tem de si e do aluno e a imagem que o aluno tem do professor e de si mesmo (ethos); e a escola como espaço, cenário do discurso pedagógico e da formação dessas imagens (cenografia).

 

            Segundo Carmo (1997) o conceito de cenografia desenvolvido por Maingueneau, recorre à metáfora teatral onde os interlocutores desempenham determinados papéis. Este conceito de cenografia também se liga ao de deixis discursiva, onde o sujeito se reporta a um outro lugar, tempo ou pessoas para confirmar ou reforçar o seu discurso e para articular o Eu, o Você, o Aqui e o Agora. Assim, “a cenografia se faz a partir da delimitação dos lugares do enunciador e do destinatário, pela evocação de uma cena, legitimando-se tais lugares, por meio de determinadas estratégias “ (Carmo, 1997, p.64).

 

            O conceito de ethos se refere à imagem que o enunciador constrói de si mesmo ao anunciar. O ethos é também associado à figura da retórica clássica onde se pode perceber não o que se diz a respeito de si mesmo, mas sim o que se revela pelo próprio modo de se expressar (Maingueneau,1989,p.45 apud Carmo,1997, p.65); e pode ser associado ao conceito de habitus de Bourdieu, segundo Carmo, que está relacionado com o modo de agir, o estilo de vida, um estilo de vestir-se, um modo de falar (Carmo,1997,p.65).

 

            Definidos os conceitos de ethos e cenografia, podemos pensar agora, na escola, no professor e no discurso pedagógico como parte de um cenário e com papéis bem definidos. Este discurso tem uma forma. Forma que também definimos ser autoritária, e é veiculado na escola que o legitima e da força. O discurso professoral tem suas bases nas ciências humanas, tais como as teorias pedagógicas e do desenvolvimento, com fundamentos a partir da psicologia, sociologia, filosofia e da biologia. Todo conteúdo escolar tem que ser traduzido de forma que o aluno aprenda e obedece a níveis de desenvolvimento cognitivo, motor e afetivo.

 

            Para transmitir estes conhecimentos o professor os traduz e nessa tradução constrói uma forma própria de saber e este saber é transmitido através de seu discurso. É deste modo, que a imagem que o professor cria de si mesmo se confunde com a do cientista e o seu discurso toma um caráter de validade psicológica, passando a ser verdadeiro. Discurso que vem preenchido com um modo próprio de significação e uma significação que é própria da instituição escolar, coletiva, vinda de uma cultura que é da escola. O discurso passa a ser autoritário e é inculcado no aluno pela força. Força essa que vem da imagem que o professor passa de si mesmo, imagem que vem do que ele sabe e da imagem que o aluno tem do professor e também de si mesmo, e fica assim: Eu (aluno que não sei) aprendo de Você ( o professor que sabe).

 

            Alunos, professores e escolares acreditam em algumas crenças e saberes porque construíram algumas imagens a respeito do papel que cabe a cada um dentro deste cenário escolar. Estas imagens também tomam um caráter de validade psicológica senão não haveria sentido crer e nem aderir ao discurso professoral.

 

            Ao analisar a fala das professoras tentaremos entender o que está implícito no discurso de cada uma delas. O implícito, Segundo Carmo (1997), é gerado por um pressuposto, que por sua vez, corresponde a um ato do locutor, a pressuposição. O implícito nos remete à questão da intenção, o que o locutor quer dizer, mas não diz explicitamente, ele está velado. Os pressupostos e subentendidos nos remete às intenções explicitas e, as vezes, também podem estar velados ao locutor.

 

            Deste modo, quando interpretamos um enunciado atribuímos ao locutor algumas intenções possíveis, e com isso, indicamos as finalidades que ele desejaria alcançar ao falar. Isso quer dizer que os enunciados não são passíveis de uma única interpretação, a interpretação verdadeira, como diz Carmo (1997).

 

            Um outro importante conceito que queremos utilizar da Semântica, refere-se aos operadores argumentativos, que são marcas inscritas no enunciado. Um exemplo é a adversativa mas, que aparecerá na fala das professoras, indicando uma relação de oposição entre um argumento e outro, ou entre A e B dentro do enunciado.

 

            Os operadores argumentativos determinam a orientação discursiva, quando os identificamos na análise, eles contribuem para reconhecermos a direção argumentativa dos enunciados. Alguns deles são: mesmo, até, até mesmo, inclusive, ao menos, pelo menos, no mínimo, e , também, n em, tanto...como, não só, mas também, ainda, aliás, além do mais, mas. Em nossa análise percebemos como marcas na fala das professoras, o mas, o só que, o se , o sempre e também, para reforçar ou negar uma idéia anterior.

 

            Vamos exemplificar, agora, fazendo a análise da fala de duas professoras da rede de ensino público do Estado de São Paulo. São professoras com mais de 10 anos de prática de sala de aula. Uma é alfabetizadora, dá aula na 1a  série e a outra é professora de 5a a 8a série. As perguntas da entrevista foram as mesmas para as duas professoras, foi feito um roteiro com 27 perguntas e vamos analisar apenas duas respostas da mesma pergunta. Todas as perguntas foram elaboradas com o intuito de levantar através das respostas, o que a professora pensa a respeito da escola, do aluno e de como ensinar. A pergunta que vamos analisar é “A escola é para todos?”

 

Optamos por deixar as falas como foram faladas, não corrigimos. Apenas mexemos em alguns dos excessos da linguagem

 

 

 

 

Primeira Professora

 

De 1a  série do ensino fundamental. Sua formação vai até o magistério, portanto 2o grau. A escola onde trabalha é municipal. Esta professora demonstrou nas respostas ter uma clara posição política a favor do governo municipal e do candidato ao governo do estado, Paulo Maluf.

 

R: MR a escola é pra todos?

 

M: É, a escola é pra todos, mas o social é atrapalhado, aí você me pergunta, mas como o social vai atrapalhar se é proibido trabalhar criança em idade escolar... Mas, a mãe e o pai fica numa situação tal, de não ficar em casa de jeito nenhum, saem seis horas da manhã e chegam as oito da noite, que eles não tem interesse de mandar essas crianças pra escola, e se ela manda você não imagina como é essa criança. Ela não tem amor com ela mesma, se você chegar, agradar, tentar abraçar uma criança dessa e dar o que ela não tem em casa, ela enfrenta, recusa, ela não quer saber de beijo, essa criança ela é dura, sabe as vezes a gente pensa em dar pra criança o que ela não tem em casa mas ela rejeita. Então a escola é para todos só que o social na minha opinião passa a não ser para todos, a gente recebe todos. A direção da escola, a administração, recebe todos sem extinção, o aluno com problema ou sem problema, o aluno com família, o aluno de bem, só que a própria sociedade as vezes está numa situação. Uma de minhas crianças com dificuldade terrível, veio do nordeste, não conhecia nada, “filha você não fez a pré escola”, “a minha mãe fala que não precisa”, você entendeu... Aqui na nossa escola, além da nossa escola ser para todos, tem para todos, mas liga a televisão, o pessoal passa as noites nas filas esperando vagas. Aqui na nossa cidade pode se dizer que a escola é para todos, que a gente tem um trabalho de assistente social, tem um trabalho com a nossa orientadora educacional. A nossa diretora é muito consciente, fica em contato com os pais, ela vai lá na casa buscar, caso contrário manda pro fórum, aqui o que a escola pode fazer tem sido feito mas ela não é para todos não em âmbito de Brasil.

 

 

 

 

Análise

 

                                   É, a escola é para todos,

                                   Mas o social é atrapalhado

                                   aí você me pergunta...

                                   mas como o social vai atrapalhar

                                   se é proibido trabalhar criança

                                   em idade escolar.

 

            O Eu enunciador aqui é pessoal e se dirige a um você interpretante que ela supõe estar negando sua idéia inicial e acrescenta que o destinatário está pensando que é proibido trabalhar criança em idade pré-escolar. Isso seria uma indicação de que o entrevistador estaria lhe informando que o social não pode atrapalhar pois há lei que garante a escola para todos. Social atrapalhado mostra a imagem de uma sociedade atrapalhada, confusa, a palavra atrapalhado leva a uma idéia de confusão. Social atrapalhado pode ser também sinônimo de governo que não governa direito. A negação aparece através do mas, que aparece duas vezes para negar a idéia anterior.

 

                                    Mas, a mãe e o pai ficam numa situação tal,

                                    de não ficar em casa de jeito nenhum,

                                    saem seis horas da manhã e chegam

                                    as oito da noite, que eles não tem

                                    interesse de mandar essas crianças

                                    pra escola, e se ela manda você

                                    não imagina como é essa criança.

 

Neste trecho a professora continua sua afirmação de que o problema é social e atinge a família. O mas aparece novamente como reforço dessa idéia. O pai e a mãe precisam trabalhar e não têm tempo para cuidar da vida escolar do filho. Ao mesmo tempo que desculpa os pais, pois eles precisam trabalhar, ela também culpa colocando que não há interesse de mandar as crianças pra escola. A culpa também se volta para a mãe “ e se ela manda, você não imagina como é essa criança”, o ela mostra uma imagem de que a mãe é responsável pela escolarização da criança. A imagem que a professora tem de família onde os pais são trabalhadores é negativa. O que ela quer dizer: é a família passa por uma situação social que não é boa, mas isso não é desculpa pela falta de interesse dos pais pela escola.

 

                                   Ela não tem amor com ela mesma,

                                   se você chegar, agradar, tentar

                                   abraçar uma criança dessa e

                                   dar o que ela não tem em casa,

                                   ela enfrenta, recusa, ela não quer

                                   saber de beijo, essa criança ela

                                   é dura, sabe as vezes a gente pensa

                                   em dar pra criança o que ela não tem

                                   em casa mas ela rejeita.

 

Neste trecho o enunciador se volta para o aluno. Pressupõe que filhos de pais trabalhadores sofrem, não têm o amor dos pais e acabam não tendo amor por si mesmos. Esta falta de amor por si mesmo é um pressuposto de que a criança não vai a escola porque não tem amor. A culpa se volta para o aluno, ele não vai a escola porque não tem amor com ela mesma. A imagem de aluno é negativa, de uma criança dura que precisa do amor da professora. A imagem que a professora tem de si mesma é a de salvadora dessa criança dura. Seu papel é de dar para a criança o amor que ela não tem em casa. Assim, já que os pais não dão amor, se ela fôr na escola, lá receberá e será salva. Parece que para esta professora a função dela e da escola é dar o que os pais não dão, isto é, amor.

 

                                   Então a escola é para todos só que

                                   o social na minha opinião passa a

                                   não ser para todos, a gente recebe todos.

                                   A direção da escola, a administração,

                                  recebe todos sem extinção, o aluno

                                   com problema ou sem problema, o aluno

                                  com família, o aluno de bem, só que a

                                  própria sociedade as vezes está

                                  numa situação.

 

A professora volta a reafirmar a primeira frase. Isso é um recurso retórico para voltar à idéia inicial, reafirmar sua idéia e negá-la ... “ a escola é para todos, que o social, na minha opinião...” a palavra é a negação da afirmação.

Ela vai proclamar neste trecho do discurso que a escola não tem culpa se a criança não vai até ela, pois todos dentro dela trabalham para receber o aluno e todo tipo de aluno, o de bem , com família. Pressupõe que tem aluno bom, com família boa que se interessa por ele, o manda para a escola, e aluno com que não tem família boa. De qualquer maneira a escola não faz distinção “extinção”, no seu dizer. A escola cumpre seu papel “só que a sociedade...” , ela, a sociedade, agora é a culpada, porque está numa situação... O destinatário tem que pressupor que está difícil porque o enunciador termina concluindo sem explicitar e fica a cargo do destinatário interpretar, ele é o você interpretante. Se a situação da sociedade é difícil é porque alguma coisa não vai bem, essa coisa pode ser a política social e econômica.

 

                                   Uma de minhas crianças com dificuldade

                                   terrível, veio do nordeste, não conhecia nada,

                                   “filha você não fez a pré escola”, “a minha

                                   mãe fala que não precisa”, você entendeu...

 

O exemplo que aparece aqui é de uma criança com problemas, isso serve para reforçar sua idéia anterior. Chama atenção a criança ser nordestina, certamente ela tem outras crianças com problema na classe, isso ela revela no restante da entrevista, no entanto ela cita uma criança nordestina. É significativa a palavra nordeste, é uma idéia de que não vem coisa boa do nordeste. Lá a criança não aprende direito, como as daqui, nem vai a pré-escola. A família, principalmente a mãe, é pior, pois a mãe nordestina diz diretamente que não precisa ir à escola. A mãe do sudeste, mesmo aquelas que trabalham, manda para a escola. A mãe do sudeste é melhor que a mãe nordestina. A criança do sudeste é melhor que a nordestina, aprende mais e conhece mais. E a escola do sudeste é melhor porque aqui a direção e administração vão atrás, afirma em seguida. Neste trecho ela revela crenças preconceituosas a respeito da criança, da família e da escola do nordeste.

 

 

 

                                    Aqui na nossa escola, além da nossa

                                    escola ser para todos, tem para todos,

                                    mas liga a televisão, o pessoal passa

                                    as noites nas filas esperando vagas.

                                    Aqui na nossa cidade pode se dizer

                                    que a escola é para todos, que a

                                    gente tem um trabalho de assistente

                                    social, tem um trabalho com a nossa

                                    orientadora educacional.

 

 

A palavra aqui representa a escola do sudeste e mais ainda a sua escola, a escola onde ela trabalha. Há duas imagens de escola, a sua que é eficiente e uma outra escola que não é. Neste cenário a professora mostra a superioridade da escola do sudeste sob a escola nordestina e a superioridade da escola onde ela trabalha das demais restante do estado. A questão agora é política e administrativa. A imagem que ela tem da sua própria escola é altamente positiva, ela conta com pessoal bastante capacitado. Quando  se reporta as imagens que vê na televisão de reportagem sobre outras escola em outros lugares ela se utiliza de uma deixis discursiva para confirmar seu discurso sobre a própria escola.

 

 

                                    A nossa diretora é muito consciente,

                                    fica em contato com os pais, ela vai lá

                                    na casa buscar, caso contrário manda

                                    pro fórum, aqui o que a escola pode

                                    fazer tem sido feito mas ela não é para

                                    todos não em âmbito de Brasil.

 

Seguindo o raciocínio do trecho anterior, ela reafirma a superioridade de sua escola, colocando a eficiência da diretora. A diretora é a principal responsável dentro da escola para que as crianças não fiquem fora dela. Se for preciso a diretora toma medidas legais se a família não cumprir seu papel. Portanto, uma escola com uma diretora eficiente, administração e orientação adequada funciona. Isso é o que a escola aqui, pode fazer e tem feito para resolver o problema de não deixar as crianças fora dela. Sua escola é então modelo para as demais do país. Mas, ela, a escola, não é para todos, não em âmbito de Brasil, finalmente a professora coloca explicitamente o que pensa sobre a pergunta “a escola é para todos?”, ela salva a sua escola antes de dizer que a escola não é para todos e justifica com as idéias: porque é mal administrada, porque as famílias não estão interessadas e os alunos muito menos.

 

 

 

 

 

 

         RESUMINDO

 

Eu (enunciador) a professora - aí você me pergunta

 

Você (interpretante) interlocutor, entrevistadora - aí você me pergunta

 

Você (destinatário) entrevistadora

 

Ele - é o social, a família, a mãe e o aluno.

 

Ethos

1. imagem que o enunciador tem de si mesma como alguém que ama e salva o aluno do desamor e desinteresse dos pais.

 

 2. imagem que o enunciador tem da família dos alunos, aparecendo como desinteressada em relação a ele e a escola. Neste discurso aparece três imagens de família, uma é a citada acima, a outra é aquela que se interessa pela escola e uma outra é a de família nordestina.

 

 3. imagem de aluno que é problemático, não recebe amor em casa porque os pais trabalham e uma imagem de aluno bom, filho de pais que se interessam pela escolarização dos filhos. E imagem de aluno nordestino.

 

 4. imagem de escola modelo, a sua própria, que se contrapõe com as demais do país.

 

5. imagem da entrevistadora como alguém que quer contradizer seu discurso.

 

Antiethos - o social que atrapalha a família, o aluno e a escola.

 

Pressuposto: A escola não é para todos porque o social não permite que todos passem por ela, principalmente os filhos de pais que trabalham.

 

Subentendido: O social é a questão política e econômica que atravessa o país.

 

Implícito: o social é um governo mau, ruim que não permite a escola para todos.

 

Principais marcas: mas, se, só que

 

 

 

 

Segunda Professora

 

De 5a a 8a  série. Sua formação é em Biologia, portanto tem um nível universitário. Ela trabalha em um escola estadual, onde foi feita a entrevista e também numa escola particular da rede do Colégio Objetivo. Mostra uma posição política neutra mas em alguns momentos chamou a entrevistadora, depois da entrevista, sarcásticamente de comunista quando esta mencionou o Partido dos Trabalhadores.

 

 

R: A escola é para todos.

 

A: Olha, eu acho que a escola não é para todos, ela existe e sempre existiu para pessoas interessadas. Sempre existiram pessoas que serviram e outras que foram servidas. Então existe uma linha de pensamentos... é... não só da questão familiar, é importante no desenvolvimento dessa criança...É mais ou menos assim, acho que a escola não é para todos porque desde a antigüidade sempre existiram pessoas que serviram e outras que foram servidas. Eu acho por exemplo que a criança dá importância para a escola, e a escola passa a fazer parte da vida dela, também faz parte do pouco dela, isso ela vai adquirir. Eu acho assim, a inteligência é um conjunto de... seriam duas coisas: o genótipo, que ela adquiri do pai e da mãe, às vezes... também pode ser que o pai e mãe não sejam tão inteligentes assim, mas ela já tem, ela dá importância, naquilo, ela já trás aquilo consigo. E o fenótipo que seria o meio em que ela vive, então a família vai propiciar ou não o desenvolvimento do genes dessa criança, se ela vive em um meio onde todo mundo acredita, fala da importância da escola para ela, onde ela desde pequena, ela seja trabalhada com essa idéia, então ela vai achar que realmente é importante, ela vai para frente, ela vai ter um objetivo na vida e vai conseguir chegar lá adiante. Agora os outros, aqueles que não acreditam, aqueles que a própria família já não ajudam, não tem condições de acompanhar, eu acho que existe uma diferença nisso e sempre irá existir, eu acho que existe desde a antigüidade e eu acho que isso não vai mudar, por que alguns não dão importância, as vezes não gostam ou não querem e outros já dão uma importância maior, é dá própria cultura isso, faz parte da cultura isso. Minha mãe sempre deu muita importância, então ela sempre acreditou muito e fez uma força imensa para isso, então, eu acho que eu estou aqui por causa dela.

 

R: É Familiar então.

 

A: Eu acho que é muito, muito mesmo, e eu vou continuar por que ela me incentiva até hoje, ela continua me incentivando. Eu faço o mesmo com meu filho, faço o mesmo com meus alunos, agora muitos entende o que eu digo, e fazem as coisas, e aprendem, agora aqueles que não dão importância não fazem, eles vem para escola com outra finalidade.

 

R: Que finalidade?

 

A: Eu acho que muitos vêm para comer, outros, vêm para matar o tempo e alguns vêm pensando que o professor é baba né, trocando eles... um pouco de lugar de pai e mãe eles não entendem muito bem essa diferença, muitas vezes eles acham que o professor tem que ficar aqui tomando conta deles, eles não vêm à escola com a finalidade de aprender.

 

 

 

Análise

 

 

                                   Olha eu acho que a escola não é

                                   para todos, ela ... existe e sempre

                                   existiu para pessoas interessadas.

                                   Sempre existiram pessoas que serviram

                                   e outras que foram servidas.

 

 

O argumento que o enunciador utiliza aqui, para reforçar sua idéia de que a escola não é para todos aparece marcado com a palavra sempre. A escola não é para todos porque as pessoas não se interessam e quem não se interessa são os que deverão servir, servir os interessados, isso sempre foi assim.

 

 

                                   Então existe uma linha de pensamentos...

                                   é... não só da questão familiar, é importante

                                   no desenvolvimento dessa criança...

                                   É mais ou menos assim, acho que a

                                   escola não é para todos porque desde

                                   a antigüidade sempre existiram pessoas

                                   que serviram e outras que foram servidas.

 

 

Neste trecho a professora dá algumas pausas e volta a reforçar sua idéia. Não se trata de insegurança, mas sim de ir buscar em outro lugar alguma coisa para reforçar seu discurso e faz isso se reportando à linha de pensamentos que seria um discurso fundador e se reportando à antiguidade, que é uma deixis discursiva e diz respeito a uma parte da história. É, então, um problema histórico, que aparece nesse enunciado, e explica e justifica a posição dos indivíduos na sociedade: quem vai servir e quem vai ser servido.

 

 

 

                                   Eu acho por exemplo que a criança

                                   dá importância para a escola, e a

                                   escola passa a fazer parte da vida

                                   dela, também faz parte do pouco

                                   dela, isso ela vai adquirir.

 

O enunciador aparece de forma bem pessoal e reforçando o eu acho, usa de um exemplo, que é um argumento retórico, para mostrar que a criança tem condições de dar importância à escola. A escola precisa fazer parte da vida dela porque ela tem pouco e vai adquirir mais com a escola. É uma imagem de criança que tem muito pouco e de escola que tem muito para dar a essa criança. A criança é aquela que não sabe e precisa ir a escola para aprender.

 

 

                                   Eu acho assim, a inteligência é um conjunto de...

                                   seriam duas coisas: o genótipo, que ela adquiri

                                   do pai e da mãe, às vezes... também pode

                                   ser que o pai e mãe não sejam tão

                                   inteligentes assim, mas ela já tem, ela dá

                                   importância, naquilo, ela já trás aquilo consigo.

 

 

Aqui a professora usa um argumento vindo das ciências biológicas para explicar a ida à escola. A criança já nasce com a inteligência e capacidade necessária para ir a escola. Mesmo que os pais não tenham inteligência e por isso a criança não pode herdar deles esta capacidade de ir a escola, a criança tem. Ela já nasce dando importância, já trás do nascimento a capacidade de se interessar. Podemos chamar esta ida às ciências biológicas uma busca de referência num discurso fundador, para justificar sua postura diante da pergunta.

 

 

 

                                   E o fenótipo que seria o meio em que

                                   ela vive, então a família vai propiciar ou

                                   não o desenvolvimento do genes dessa

                                   criança, se ela vive em um meio onde

                                   todo mundo acredita, fala da importância

                                   da escola para ela, onde ela desde pequena,

                                   ela seja trabalhada com essa idéia, então ela

                                    vai achar que realmente é importante, ela vai

                                   para frente, ela vai ter um objetivo na vida e

                                   vai conseguir chegar lá adiante.

 

 

Seu argumento vai em direção à família da criança. A criança tem os genes, já nasceu com a capacidade. Mas, a condição, se, para desenvolver essa capacidade, virá da família, o seu meio, e isso precisa começar desde cedo. A escola é importante e a família precisa inculcar essa idéia desde cedo na criança, senão ela não dará importância para a escola e não terá objetivo na vida e nem chegará lá adiante. Chegar lá adiante é progredir e é a escola que fará com que a criança tenha objetivos na vida e progrida. A importância da escola na vida da criança é vital para ela sair do lugar onde está e chegar lá adiante. Esta é a imagem que a professora faz da escola e a família será a principal responsável para que ela dê essa importância que a professora dá a escola.

 

 

 

                                   Agora os outros, aqueles que não acreditam,

                                   aqueles que a própria família já não ajudam,

                                   não tem condições de acompanhar, eu acho

                                   que existe uma diferença nisso e sempre

                                   irá existir, eu acho que existe desde a

                                   antigüidade e eu acho que isso não vai mudar,

                                   por que alguns não dão importância, as vezes

                                   não gostam ou não querem e outros já dão uma

                                   importância maior, é dá própria cultura isso,

                                   faz parte da cultura isso.

 

 

Neste trecho, os outros, os que não acreditam, os que têm uma família que não ajuda, não têm condições de acompanhar a escola. O problema é familiar e também da própria criança que não acredita e é também um problema que vem da cultura. Quando joga o problema para a cultura ela legitima a ausência de algumas crianças da escola e reforça com a palavra diferença. É então um acontecimento que vem deste a antiguidade, desde sempre e é da cultura. A diferença entre os indivíduos e entre as classes existe e sempre irá existir, isso faz parte da cultura.

 

 

 

                                   Minha mãe sempre deu muita importância,

                                   então ela sempre acreditou muito e fez

                                   uma força imensa para isso, então, eu

                                   acho que eu estou aqui por causa dela.

 

 

A presença da família na vida escolar é muito forte para esta professora e ela cita a própria mãe como exemplo. A mãe é, também aqui, a responsável pela educação escolar. A força da mãe deve ser imensa, é só assim que a criança pode chegar lá. Lá onde está a professora. A mãe é fundamental na escolarização e no progresso da criança.

 

R: É Familiar então.

 

                                   Eu acho que é muito, muito mesmo,

                                   e eu vou continuar por que ela me

                                   incentiva até hoje, ela continua me

                                   incentivando. Eu faço o mesmo com

                                   meu filho, faço o mesmo com meus

                                   alunos, agora muitos entende o que

                                   eu digo, e fazem as coisas, e aprendem,

                                   agora aqueles que não dão importância

                                   não fazem, eles vem para escola

                                   com outra finalidade.

 

Ela como mãe fará o mesmo com o filho. A imagem que ela tem da mãe adequada é apropriada e ela repete sua ação. Essa repetição é a mesma de sempre, é assim que a história se repete sempre. E ao agir como mãe dos próprios alunos é uma atitude de tutelagem e de tentar ser mãe para eles. Ela sai de seu papel de professora se torna mãe e incentiva-os. A imagem da mãe como mantenedora de status e de uma cultura é forte.

 

 

R: Que finalidade?

 

                                   Eu acho que muitos vêm para comer,

                                   outros, vêm para matar o tempo e

                                   alguns vêm pensando que o professor

                                   é baba né, trocando eles... um pouco

                                   de lugar de pai e mãe eles não entendem

                                   muito bem essa diferença, muitas vezes

                                   eles acham que o professor tem que

                                   ficar aqui tomando conta deles, eles não

                                   vêm à escola com a finalidade de aprender.

 

Segundo a professora a imagem que os alunos tem do professor e da sua escola está distorcida, veja que ela está neste momento da entrevista, na escola pública e este é o cenário onde se compõe este discurso. Este aluno, desta escola, não entende a diferença entre a professora, o pai e a mãe, eles não vão à escola para aprender, mas sim porque querem ser cuidados, protegidos e alimentados. A escola não é para eles mas sim para os que se interessam por ela e pelos estudos.

 

 

 

RESUMINDO

 

 

Eu (enunciador): professora - aparecendo de forma bastante pessoal

 

Você (destinatário): a entrevistadora

 

Você (interpretante): a entrevistadora - É familiar então?

 

Ele - aluno, com dotes pessoais, e a família

 

Ethos - 1. imagem que o enunciador tem do aluno como geneticamente capaz.            

            2. imagem que o enunciador tem da família como proporcionadora da boa                      escolarização do filho.

 

             3.imagem que o enunciador tem da mãe como principal agente da                                 escolarização dos filhos.

 

             4.imagem que o professor tem da escola como principal responsável pelo                      progresso do indivíduo e como agente de manutenção das classes sociais.

 

             5.imagem que a professora tem de si mesma como incentivadora e como mãe             dos alunos.

 

Antiethos - aluno que não se interessa pela escola. Família que não incentiva. Há                         também um antiethos de professor que aparece na imagem que os alunos                      fazem dele.

 

Pressuposto: a escola não é para todos porque alguns precisam servir os que vão se            dar bem nela e na vida (os que serão servidos).

 

Subentendido: a história confirma a divisão de classes desde a antiguidade e a escola                           é a mediadora dessa divisão.

 

Implícito: A escola não pode ser para todos porque precisa existir a divisão social de                   classes, os menos inteligentes e capacitados que servirão e os bons, os                        capacitados e inteligentes que precisam dos primeiros para serví-los.

 

Principais marcar: sempre, também, mas, se.

 

 

 

 

 

CONCLUSÃO

 

A fala da primeira professora está toda baseada em senso comum, em crenças. Crenças a respeito de si mesma, a respeito da família dos alunos, de pais trabalhadores, de aluno bom e aluno ruim, de criança nordestina e de escola eficiente. As imagens que ela traz de si mesma e do outro está permeada de crenças e preconceitos. É uma pensamento cristalizado, não refletido. Ela repete um discurso que geralmente aparece na escola em outras entrevistas e pesquisas que mostram um estereótipos de família e de aluno.

Algumas crenças são: “pais que trabalham não dão atenção e nem amor para os filhos”

 

                                    “alunos de pais trabalhadores não são bons alunos, não amam                                             porque não têm amor”

 

                                  “alunos nordestinos não conhecem nada e não aprendem, têm                                              dificuldades terríveis”